Edições de 1990 – No rastro das novidades

dylancapaCom o mesmo projeto gráfico, a Bizz entra nos anos 1990 assim como terminou os 1980. O editor ainda era José Augusto Lemos, e a primeira edição (nº 54) daquela década trazia os tradicionais cupons para votação dos melhores do ano anterior (1989). As cédulas vinham anexadas na própria revista, e cabia aos leitores destacá-las e enviar suas escolhas pelos Correios. A capa da primeira edição de 1990 estampava Bob Dylan, àquela época com 48 anos. A matéria sobre o ídolo do folk rock foi assinada por Ana Maria Bahiana e o título era “Faces e Fases”, uma análise minuciosa sobre a vida do cantor e os discos que lançara até então, entre os anos de 1961 e 1989:

“A América era risonha e franca, quase pura, quando o menino Robert Allen Zimmerman inventou o trovador Bob Dylan. Havia subúrbios estalando de novos em torno das cidades, uma TV em cada casa e dois carros em cada garagem, um supermercado – essa incrível e recente invenção do conforto urbano! – em cada esquina e muitos bambolês em todos os armários. Em breve haveria um homem no espaço e um jovem presidente na Casa Branca, falando em justiça social e igualdade racial e namorando Marilyn Monroe escondido – John Kennedy, é claro -, e uma vaga euforia pairava no ar. É certo que existiam coisas como a ameaça nuclear, esta estranha novidade que parecia, a princípio, uma bênção, e agora ninguém estava tão certo assim; e o muro de Berlim e a Guerra Fria, e a CIA tramando sem parar a derrubada de Fidel Castro. Mas dentro das fronteiras da América, uma prosperidade inédita, confortável e segura embalava sonhos de transformação, acordava espíritos aventureiros”.

sepulturaNa seção “Ao Vivo”, ainda na primeira edição de 1990, uma matéria sobre uma apresentação do Sepultura em Londres, no Marquee. Se o heavy metal brasileiro tinha iniciado a explosão na gringa em 1987, o início da década de 90 provava que os trashers de Minas Gerais não eram fogo de palha e, sim, bons o suficiente para conquistar a Europa. No texto em questão, assinado por Anamaria G. de Lemos, o grupo estava em turnê abrindo para a Sodom, banda alemã de thrash metal formada em 1981, mas, de acordo com Anamaria, as atenções do público estavam bem longe da atração principal. O pessoal queria mesmo era ver o Sepultura:

“Este é o último show da turnê européia do Sepultura. Ou melhor, do Sodom. Afinal, o Sepultura está apenas abrindo o  show. Só que fica difícil acreditar nisso quando qualquer pessoa presente pode ver que 90% do público veio ao Marquee nessa noite de domingo para ver os thrashers brasileiros. Até ouço boatos que o tour manager alemão pensa em inverter a ordem hoje, já que os garotos mineiros estão dando de dez a zero nos companheiros germânicos todas as noites. Quando Max, Igor, Paulo e Andreas aparecem no meio da fumaça, corpos se espremem e se apertam, numa tentativa desesperada de chegar mais perto do palco. A capacidade oficial do clube é de 850 pessoas. Mais tarde fico sabendo que havia, no mínimo, 1100 presentes”.

Finalizando essa primeira edição de 1990, a seção discoteca básica indicava o disco “Tago Mago”, da banda germânica Can. O texto de Thomas Pappon indicava o quarto álbum do grupo, naquele período já com dez anos de estrada. O jornalista destacava a  “música hipnótica, com uma  impressionante mistura de ritmos  e timbres acústicos alterados, tratados  eletronicamente”. O Can, considerada uma banda visionária, ainda lançaria mais nove álbuns de estúdio, e “Tago Mago” foi considerado pelo corpo editorial da Bizz como uma obra essencial:

Ainda na década de 1990, a seção “Discoteca Básica” traria aos leitores as seguintes bandas e discos, em ordem de publicação:

Os melhores de 1989

loureed

Lou Reed – New York

Na edição de abril de 1990 (nº 57) foram publicados os tão esperados melhores de 1989. A Bizz dividia as escolhas do público e as escolhas dos jornalistas e colaboradores da revista. Geralmente, os eleitos pelos fãs diferiam bastante das escolhas do corpo editorial e convidados, mas alguns eleitos acabavam sendo uma unanimidade. Um exemplo disso foi o disco “Õ Blésq Blom”, dos Titãs, escolhido como melhor LP nacional por crítica e público. Já na escolha do melhor álbum internacional, os fãs elegeram “Lies”, dos Guns N’Roses, mas o corpo editorial ficou com “New York”, do Lou Reed. Completando a lista, foram eleitos os seguintes LPs:

Melhores álbuns nacionais de 1989: Opinião do público

Melhores álbuns nacionais de 1989: Opinião da crítica

  • 2. Estrangeiro – Caetano Veloso – 42%
  • 3. Sanguinho Novo – Vários – 27%
  • 4. Big Bang – Paralamas do Sucesso – 26%
  • 5. Combustível Para O Fogo – Sexo Explícito
  • 6. Eu Canto Samba – Paulinho da Viola – 25%
  • 7. Amigos Invisíveis – Edgard Scandurra – 20%
  • 8. As Quatro Estações – Legião Urbana
  • 9. Beneath The Remains – Sepultura – 16%
  • 10. O Canto Das Lavadeiras – Martinho da Vila

Melhores álbuns internacionais de 1989: Opinião do público

Melhores álbuns internacionais de 1989: Opinião da crítica

No rastro do grunge

A partir do mês de junho de 1990, na edição número 59, o jornalista André Forastieri passa a ser o editor da Bizz. Forastieri, egresso do jornal Folha de São Paulo, onde cobria quadrinhos, cinema e música para a Ilustrada e foi o primeiro editor do Folhateen, colocou a Bizz na pista das novas bandas da década de 1990. Não foi à toa que, no primeiro número em que editou a revista, as primeiras bandas da gravadora Sub Pop – Mudhoney, TAD, Nirvana, Soundgarden e Thee Hypnotics – foram citadas como as maiores novidades do rock.

subpop

A matéria sobre a nova Meca de novidades no circuito alternativo daquela época foi assinada por Álvaro Pereira Jr., com o título: “SUB POP – Um selo independente de Seattle concentra a nova vanguarda do heavy metal”. Era o grunge dando às caras na Bizz:

Um selo independente catalisa movimento. Nome: Sub Pop. O dono é Bruce Pavitt, ex-critico de música que, de tanto receber demos no jornal, resolveu abrir uma gravadora para abrigar os renegados do mainstream. Com cerca de dez bandas assinadas, o Sub Pop passou a ser referência obrigatória. Soundgarden e Mudhoney se destacam. O primeiro saiu da Sub Pop, mas mantém o espírito. O Mudhoney já se chamou Green River, foi a primeira banda da gravadora e influenciou toda a leva de  grupos de Seattle que veio na cola. Na verdade, o Mudhoney é uma espécie de cruzamento entre o Black Sabbath e o Fall. Muito barulho, vocais cavernosos, melodias estranhas, repetitivas. O peso não se limita a guitarras distorcidas à moda do pop inglês. No caso do Mudhoney, a bateria ensurdece e o baixo induz tremores.

bodididley

Bo Diddley

HEY! DO DIDDLEY!

Na edição do mês de julho de 1990, nº 60, uma nova seção fixa chamada “Fast Forward” foi acrescentada à Bizz. Como estrela principal dessa parte da revista, ninguém menos do que Bo Diddley, um dos pilares do rock’n’roll dos anos 1950 (ao lado de Chuck Berry, Bill Haley, Little Richard) e inventor da batida que leva seu nome. Em texto assinado por Celso Pucci, com o título “Bo é o Homem”, o jornalista entrevistou o “gordinho de óculos da guitarra quadrada” nos bastidores de um festival chamado “Blues Festival 90”. Na coletiva, ao ser perguntado se considera-se um bluesman, Diddley respondeu na lata: “Não, definitivamente… Tenho um pouco de blues, spirituals, country & western e, antes de tudo, rock ‘n’ roll”. O guitarrista ainda falou um pouco sobre o momento do rock naquele período da década de 1990:

“Que rock´n´roll? Essa coisa toda de solos de guitarra estridentes, isso não é música. Imagine um garoto de uns 21 anos que escutou e considera este som como rock´n´roll. Estou no negócio há 35 anos e ele nunca ouviu Bo Diddley. Nunca escutou taram-tam-tam (canta o riff de “I´m A Man”), mas deve conhecer George Thorogood tocando to-ram-tam-tam (canta o mesmo riff, bem mais acelerado). Um dia talvez ele descubra alguma coisa sobre mim, de onde vim, o que fiz e o que faço. Mas, quando se fala de rock´n´roll, não é Bo Diddley que ele costuma ouvir. Por isso, deviam dar outro rótulo para isso, new music, quem sabe… Rock´n´roll é assunto para mim, Elvis, Gene Vincent, Carl Perkins, Fats Domino… Então eu apreciaria muito que eles inventassem seu próprio nome para o som que fazem e nos deixassem com as coisas que fizemos”.

Ainda na edição de julho, outro retorno ao passado com uma matéria assinada por René Ferri: “Ellie Greenwich – Rainha dos anos dourados do pop americano”. O texto reflete um pouco sobre a época em que o rock’n’roll tinha sido deixado de lado, em meados de 1959, e aguardava pela renovação que viria com a invasão britânica em 1964. Apesar disso, foi um período rico para a música. Entre 59 e 63, surgiram as chamadas “girl bands”. Era o retorno à era dos compositores contratados fazendo músicas para intérpretes (no caso, as meninas), que tocavam com bandas de apoio ou orquestras que faziam parte do casting das gravadoras. A maioria desses selos encontravam-se no Brill Building, sendo o Red Bird o mais importante. Além de Ellie Greenwich, um dos ícones deste período, outra banda citada na matéria foram as Ronettes, três meninas de Washington Heights, bairro pobre de Nova York, que fizeram sucesso apoiadas (e exploradas) pelo gênio da gravação Phil Spector. No texto de Ferri, entende-se um pouco sobre aquela entressafra do rock:

The_Ronettes_1966

The Ronettes

“O rock´n´roll definhava. Surgiam os grupos vocais femininos. Phil Spector iniciava suas luxuriantes produções independentes, criando um ano depois sua revolucionária Philles Records. Ellie escrevia seu primeiro hit, “He´s Got The Power”, para The Exciters, ao mesmo tempo que a Jubilee Records editava comercialmente suas demos sob o nome The Raindrops. Depois, já integrados à prolífera produção de Spectór, Ellie e Jeff Barry passavam todo tempo trancados no estúdio Gold Star de Los Angeles, compondo e produzindo aqueles imaculados discos para Ronettes, Darlene Love, Crystals, Bobby B. Soxx e Righteous Bros”.

Na edição de setembro, número 62, a banda Jesus & Mary Chain participou da seção “Cabra-Cega”. As opiniões dos irmãos Reid foram bastante polêmicas a respeito das músicas escolhidas pela redação da Bizz:

Sonic Youth – Green Light

Jim Reid: “Sonic Youth? Reconheci pela voz de Thurston. Gosto de algumas coisas deles, tenho alguns discos. Mas não gostei dessa”.

DEFALLA – Tinha Um Guarda Na Porta

Jim Reid: (perplexo): “Não tenho a menor idéia. É uma banda brasileira! Com uma girl drummer! Odeio quando nos comparam com outras bandas, mas me lembra Public Image do começo”.

MUTANTES – Jardim Elétrico

Jim Reid: (Esclarecido de que ouviu uma banda brasileira dos anos 60): “Bem, esse baterista arruinou tudo, não? Bastardo exibicionista. Tocou por cima de tudo”.

R.E.M. – Femme Fatale (Lou Reed)

William Reid: “Isso me irrita profundamente. Gravam uma fucking cover só para mostrar que têm um gosto musical cultivado. O original é brilhante e essa versão transforma a música em repertório de banda de bar, gente sem criatividade nenhuma. A impressão que me dá é que eles, na verdade, não gostam do Velvet Underground. Quem realmente ama os Velvets não tocaria esta música sem ter certeza de estar acrescentando algo bonito a ela. O R.E.M. não é uma banda ruim, mas… Outras pessoas fizeram versões boas de músicas do Lou Reed. ‘Sweet Jane’ com os Cowboys Junkies é um bom exemplo. Eles quase não mexeram na instrumentação, mas conseguiram um feeling totalmente diferente”.

letras

Peter Garrett – Midnight Oil

Sem nenhuma alteração drástica, tanto no projeto gráfico como no conteúdo, a Bizz terminou o primeiro ano da década de 1990 indicando uma possível renovação no panorama musical. Ligados aos primeiros movimentos do inovador som underground que se formava nos Estados Unidos através da gravadora Sub Pop, colaboradores da Bizz estavam a um triz de catapultar o novo momento da música que se espalharia por todo o globo, o que se confirmaria a partir dos anos seguintes. Com o editor André Forastieri, ligado a outros jornalistas da geração 90, como André Barcinski, a revista estava pronta para as grandes novidades que estavam por vir. Os anos 90 estavam apenas começando…

História da Bizz

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One thought on “Edições de 1990 – No rastro das novidades

  1. Revistas infelizmente perderam espaço para a tecnologia mas eu ainda curto muito. Compro algumas sempre que dá. Sem falar de algumas revistas antigas que eu guardo até hoje.

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