Leitores e descobertas

GEORGEO livreiro Rogério Brugnera, 40 anos, estava entre os 12 e os 16 anos na segunda metade dos anos 1980. Em 1989, começou a trabalhar como office-boy para o jornal Folha de S. Paulo. Brugnera relembrou a relação que tinha com a Bizz naquele período:

“A Bizz, na década de 1980, era a única revista especializada em música que tinha alcance nacional. Então era difícil deixar de vê-la, ainda que não existisse nenhuma forma de propaganda a não ser o boca a boca. A gente vivia a segunda metade da década e o rock brasileiro já era uma realidade. Tocava em rádio comercial e tudo. A Bizz apareceu pra levar algum material de qualidade sobre aquelas bandas, eu acho, porque parece, vendo hoje, era algo feito meio sem padrão, mais pelo gosto dos jornalistas e pela responsabilidade em iniciar uma cultura rock and roll no Brasil. Porque até aquele momento, apesar de termos tido muitas grandes bandas nas décadas anteriores, acompanhá-las era uma coisa somente para iniciados, ou seja, para aqueles que curtiam as bandas gringas e tinham os discos importados”.

Na década em questão, Brugnera relata quais eram as principais dificuldades da para conseguir encontrar material de qualidade sobre as bandas que gostava sem o auxílio da revista:

A informação tinha poucas fontes, basicamente vinda dos EUA e Inglaterra, dava pra colecionar o que era mais interessante, tudo guardado em gavetas, pastas e caixas. Esse é o lado romântico. Havia uma espécie de casamento entre os programas de rádio e a Bizz, pois não era raro um colunista/jornalista apresentar alguma coisa periodicamente nas rádios do Rio e de SP. O negócio era ouvir os caras certos, ler os caras certos”.

Brugnera também se lembra do quanto foram importantes as seções da revista dedicadas a bandas desconhecidas. Foi na edição nº 16, de novembro de 1986, que ele conheceu a banda porto-alegrense Defalla, em uma nota intitulada “Rock Gaúcho a Toda” (Bizz, edição 16, 1986, p. 07). O texto era sobre um festival chamado Rock Unificado, realizado em Porto Alegre e que reuniu mais de 10 mil pessoas, no qual se apresentaram os grupos que compunham o disco Rock Grande do Sul:

“O maior destaque foi a ousadia do DeFalla, que subiu ao palco acompanhado por uma pequena cozinha de samba: um surdão, duas tumbadoras, repinique e caxeta, levando um ritmo inacreditável (funk-samba-tribal?). Também pesaram as participações especiais: Fuqueti Luz, ex-integrante do Bixo da Seda (maior projeção do rock gaúcho nos anos 70), cantando com a Bandaliera, e Nei Lisboa ao lado dos Engenheiros do Hawaii. Nei participa do LP do grupo cantando “Toda Forma de Poder”.

Mas não apenas as indicações de bandas foram marcantes para Brugnera. A Bizz apresentou, em inúmeras edições, a preocupação em analisar o futuro da música brasileira ou indicar, no começo de cada ano, quais seriam os artistas mais importantes para o período que se iniciava. Ele relembra uma matéria da revista a respeito do futuro do rock nacional, publicada na edição nº 42, de 1989.

Na reportagem, a Bizz reuniu os representantes das principais bandas brasileiras para debater o mercado fonográfico, a expansão das FMs e estrutura para shows. Brugnera conclui: “Só deu pau, nenhum entendimento”. A visão dele sobre a matéria reflete-se no título “Olho por Olho Dente por Dente” (Bizz, edição 42, 1989, p. 29), na qual ícones do rock brasileiro dispararam suas opiniões a respeito do panorama musical daquele período. Renato Russo, vocalista da banda Legião Urbana, ganhou destaque na edição por suas opiniões contundentes sobre o cenário e as bandas internacionais:

renatorusso

Renato Russo

Outro aspecto daquele período que Brugnera citou como extremamente importante na Bizz eram as fotografias. Mesmo com a revista priorizando o texto às fotos, ao contrário do que foi visto na linha editorial da revista na segunda metade da década de 1990, a qualidade das imagens publicadas pela Bizz chamava a atenção dos leitores, tanto nas capas como nas matérias e seções. “Não há rock and roll sem imagem, e nisto a Bizz era bem carregada”, sintetiza Brugnera.

Junto às fotografias, a Bizz apresentava um corpo editorial com jornalistas culturais experientes que marcaram os leitores da época. Brugnera diz que “gostava de ler os textos da Ana Maria Bahiana sobre as bandas inglesas. A profissional citada pelo leitor, na época, já possuía uma história importante em publicações voltadas à música.

anamariabahiana

Ana Maria Bahiana

No começo da década de 1970, Ana ajudou a introduzir no Brasil a versão nacional da revista de origem norte-americana Rolling Stone, da qual era secretária de redação. Na década de 1980, com mais de 10 anos de atuação em grandes veículos de imprensa (O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo), a jornalista escrevia para a Bizz como colaboradora e foi citada por José Eduardo Mendonça no editorial da segunda edição da Bizz, de setembro de 1985, “como cronista-mor de nossa imprensa de rock” (Bizz, edição 02, 1985, p. 03).

Nesta edição, a jornalista assinou uma matéria sobre dois ícones do rock: o guitarrista Jimi Hendrix e a cantora Janis Joplin. Intitulado “Joplin e Hendrix” (Bizz, edição 02, 1985, p. 43), o texto prestava uma homenagem a duas figuras importantes no gênero e apresentava Ana Maria Bahiana aos leitores da Bizz:

“Janis, branca que se fez negra, nasceu a 19 de janeiro de 1943. Port Arthur, sua cidadezinha texana, não esperava dela mais do que o apego cotidiano aos valores da classe média. Não foi o caso. A juventude rebelde atravessou os anos 50 e chegou aos 60 mais desiludida ainda, preparando a aventura hippie. Janis, gorducha, espinhenta e desajustada, alimentava o fogo atrás dos seus modos dúbios de adolescente. (…) Jimi, James Marshall Hendrix, nasceu em Seattle, Washington, em 27 de novembro de 1942. Herdou do pai, Al, o gosto pela música – e como. A primeira guitarra já era empunhada ao contrário pelo menino canhoto de 12 anos, que imitava seus ídolos do blues. Passou pelo exército como paraquedista, mas escapou do Vietnã porque se acidentou em um salto. Pôs o pé na estrada acompanhando Little Richard, Isley Bros, Ike e Tina Tuner. Mas foi em Londres, levado por Chas Chandler, dos Animals, que ele conheceu o sucesso”. 

Entre 1985 e 1989, a Bizz, junto a cadernos culturais como a Ilustrada, da Folha de S. Paulo, e o Caderno 2, do Estado de S. Paulo, era uma das conexões mais acessíveis e econômicas entre público e artista. A Bizz apresentava as bandas e os leitores seguiam afoitos para as lojas de discos buscando novidades.

Exemplos de estabelecimentos comerciais que viveram o auge daquele período são a London, que funcionou em Santos, no litoral de São Paulo, entre os anos 1985 e 1987, e a Velvet CDs, inaugurada em 1991 e que funciona até hoje na Galeria Presidente, ao lado da Galeria do Rock, no centro de São Paulo, ambas do comerciante André Fiori.

recorteComo poucos, o lojista sabia da importância de uma publicação como a Bizz naquela época. “Era engraçado porque, às vezes, saia uma matéria falando de certa banda, descrevendo o som. Mas como é que você ia ouvir aquilo? Se não fosse lançado no Brasil, se ninguém trouxesse importado? Então você anotava, guardava a matéria, guardava o nome, e depois de muito tempo que ia conseguir ouvir, o que é diferente de que acontece atualmente. Eu pegava as anotações que lia em jornais e revistas, via o disco, então conectava: ah, eu já ouvi falar disso. Então era como se fosse uma brincadeira de ficar juntando os pontos”, diz Fiori.

A busca de informações sobre bandas fez parte da história da London e da Velvet CDs, frequentadas por fãs, músicos e jornalistas. As pessoas costumavam aparecer nas lojas com pedaços de papel que tinham recortado de revistas. Chegavam ao balcão e mostravam ao lojista. Fiori diz que as perguntas mais frequentes eram “você conhece essa música? Sabe que banda é essa? Tem o álbum?”. Já acostumado a ler e escutar música o tempo todo, o comerciante indicava quais eram as bandas e efetuava a venda.

Outro ponto interessante eram os grandes lançamentos. Quando um músico ou banda conhecida apresentava um novo álbum, o público ficava ansioso para conseguir comprar as primeiras unidades antes que acabasse o estoque. Algumas pessoas permaneciam de campana na porta da loja esperando Fiori chegar, outras ligavam de cinco em cinco minutos para ver se ele já tinha o álbum em mãos.

Provavelmente, muitos destes recortes de jornais levados à Velvet CDs e à London eram provenientes da Bizz que, desde 1985, manteve em suas páginas diversas seções dedicadas ao lançamento de discos no exterior e no Brasil. Na seção “Porão”, assinada por Marcel Plasse, na edição número 17, de dezembro de 1986, foram indicadas bandas então completamente desconhecidas no cenário nacional, como a norte-americana Let’s Active e a inglesa Primal Scream:

“Primal Scream é Bobby Gillespie. O rosto distante, perdido atrás de uma franja, conhecido por suas apresentações como baterista do Jesus & Mary Chain. Falar dos Primals é falar dele. Ele dá as entrevistas, é o organizador. No palco, é quem pega o microfone e canta em voz baixa, parecendo e soando como Roger McGuinn. Suas canções convidam a passear num parque, ou mergulhar numa praia dos anos 60. Ouvir um pandeiro e esquecer que existem sintetizadores”. 

capa-blade-runnnerO professor de inglês Eduardo Nicimuta, 43 anos, foi outro leitor que teve na Bizz a sua fonte fundamental de informação no período. À época, entre os 15 e os 19 anos, Nicimuta terminava os estudos e ajudava o pai no trabalho. Entusiasmado por descobertas na Bizz, o cinema acabou se tornando uma de suas áreas culturais preferidas. Nicimuta conta que “comprava a revista assim que chegava às bancas”. Nota-se, neste aspecto, que a abrangência de assuntos também foi essencial para auxiliar a formação cultural de leitores como ele na época.

“Uma parte da revista que deve ter me influenciado não era nem propriamente sobre música. Foram as curtas resenhas sobre vídeos, às vezes sobre shows ou clips, mas muitas vezes também sobre filmes, que chamaram minha atenção, tanto é que muitos colaboradores da Bizz começaram a escrever para a revista SET, que logo passou a ser uma das minhas revistas favoritas”, diz Nicimuta.

Nicimuta refere-se a seções da Bizz encontradas desde a primeira edição: “Vídeo Visual”, que indicava filmes em formato VHS lançados no Brasil, e “Visual Cinema”, com matérias e críticas sobre películas em cartaz no país e no exterior. Um dos filmes citados por Nicimuta é Blade Runner, do diretor inglês Ridley Scott, presente na “Vídeo Visual” da primeira edição da Bizz, de 1985: “Numa Los Angeles do futuro envolta na poluição e permeada pela cultura oriental, Harrison Ford é um policial com licença para matar andróides que se rebelaram contra o sistema” (Bizz, edição 01, 1985, p. 20).

No mesmo número, a Bizz indicava, na “Visual Cinema”, o filme Brazil, do diretor norte-americano Terry Gilliam, em matéria assinada por Alex Antunes, intitulada “Brazil: humor negro ao som de Ary Barroso” (Bizz, edição 01, 1985, p. 48).

Além do cinema, Nicimuta descobriu através da Bizz as bandas do estilo pós-punk, em voga na Inglaterra nos anos 1980. “Por difícil que possa parecer, grupos óbvios como The Smiths, New Order e The Cure eram quase seres de outro planeta, devido ao atraso no lançamento do vinil aqui em relação a outros mercados”, diz Nicimuta. Porém, foi possível obter mais informações sobre os músicos em questão através das matérias principais da revista. Duas delas foram destaque de capa na época em que ele era leitor da publicação. Na edição número 14, de setembro de 1986, foi publicada uma extensa entrevista com Robert Smith, vocalista do The Cure:

“O ano de 1986 já é um marco na história de Cure. Depois de quase dez anos compartilhando uma semi-obscuridade fora do continente europeu, com grupos conterrâneos e contemporâneos seus como os Banshees e os Bunnymen, excursionam pelos Estados Unidos com sucesso (ver ao vivo desta  mesma edição) decorrente das vendagens imprevistas de The Head on The Door e da recém-lancada coletânea de compactos, Standing on a Beach (título extraido de um dos versos do primeiro compacto gravado pela banda, Killing an Arab). Robert Smith já havia dado uma simpaticíssima e abrangente entrevista a Pepe Escobar (publicada na Bizz número 7), que por sua vez dera a ficha completa do grupo na edição de BIZZ número 5. É pouco? Para o número cada vez maior de fãs do Cure que se correspondem com nossa redação, sim”. 

COMO ASSIMNa edição seguinte, outro músico que Nicimuta disse ter conhecido através da Bizz era o destaque de capa: o então vocalista do The Smiths, Morrissey. Vale lembrar que, à época da publicação de ambas as edições, o pós-punk era a vertente de rock mais elogiada e popular no Reino Unido.

Apenas em 1986, foram lançados alguns dos principais discos do gênero, como “The Queen Is Dead”, do The Smiths, “Tinderbox”, do Siouxsie & the Banshees, “Bend Sinister”, do The Fall e “Album”, do Public Image Limited (PIL). A entrevista com Morrissey, publicada na edição de outubro daquele ano (nº 15), apresentava o momento da banda após o lançamento do novo álbum:

 “The Queen is Dead (“A Rainha Está Morta”), terceiro LP dos Smiths, foi recebido com uma generosidade de elogios cada vez mais rara na ranheta – porém criteriosa – crítica inglesa. Mas não é de hoje que o grupo é considerado o mais vital e consistente do universo pop. Antes de eles iniciarem sua excursão pela Europa e EUA – que tomou os meses de agosto e setembro – Morríssey recebeu Ian Pye, do New Musical Express, em seu luxuoso apartamento duplex, na parte mais aristocrática do bairro londrino de Chelsea. Dizem que o apê já foi inclusive habitado por Oscar Wilde, o que deve ter pesado na decisão da compra. Mas o que importa é que deste encontro saiu a entrevista mais reveladora do bardo de Manchester, traduzida com exclusividade para a BIZZ. Vamos lá!”.

Entre outros aspectos que faziam Nicimuta utilizar a Bizz como fonte de informação, são citados os jornalistas e colaboradores da revista. “Eles pareciam se interessar muito pelo objeto dos seus textos; tinham muitas informações para passar”, diz. Essa característica observada pelo leitor deve-se ao cuidado na apuração das matérias e à preocupação com estilo nas críticas, desvinculadas economicamente da indústria fonográfica. “Lembro que, pelo menos nos cinco primeiros anos, lia quase todos os textos”, completa.

Um exemplo desta linha analítica e cheia de referências da Bizz pode ser conferida na edição número 11, de junho de 1986. A revista destacava os Paralamas do Sucesso na capa da edição e dava espaço para Alex Antunes fazer uma crítica ao terceiro disco da banda, intitulado “Selvagem?”, lançado naquele ano. Em texto criativo, com menções a outros estilos musicais e outras bandas, Antunes avaliava o álbum da banda carioca:

“Quem ouviu ‘Alagados’, a moda-de-guitarra que os Paralamas escolheram para anteceder o novo LP, já desconfiou que algo de diferente estava sendo armado pelos caras. Dito e feito, Selvagem?, o álbum, chuta a uns bons quilômetros de distância a história de que o trio não passaria de um subPolice da província. Passou. Lógico, a chave ainda é a conexão jamaicana. Mas as articulações (bem lubrificadas) ska-reggaeanas deste terceiro disco da banda ultrapassam os modismos. Baixou o santo (Jah, aliás). A novidade é confirmada não só na música. Carregando as letras de um inconformismo sadio (sem ingredientes artificiais) e bem-humorado, Herbert correu longe da pasmaceira monstruosa (“Ela foi dar, mamãe! Ela foi dar, mamãe!”) que assola nossa literatura-de-encarte. De Teerã em chamas à censura, conflitos raciais, vida na favelas, tretas de casal, a grata constatação: há vida inteligente no rock!”.

marcelo nova 18

Marcelo Nova

O mesmo Alex Antunes, ao criticar um disco ao vivo da banda baiana Camisa de Vênus, intitulado “Viva!”, conseguiu um dos primeiros desafetos da revista, que se multiplicariam ao longo do tempo. A crítica de Antunes, publicada na edição número 14, de setembro de 1986, indicava que o Camisa de Vênus, era “(…) um grupo arrogante, metido a herdeiro do punk dos Pistols [Sex Pistols]” (Bizz, edição 14, 1986, p. 14).

Antunes ainda concluía: “Na época e no lugar errados. A absurda versão de ‘My Way’, eternizada por Elvis-Sinatra-Sid Vicious, comprova” (Bizz, edição 14, 1986, p. 14).

Dez anos depois, após uma nova crítica a um disco ao vivo da banda (“Plugado”), desta vez assinada por Paulo Cavalcanti, ocorreu um episódio constrangedor envolvendo o vocalista do Camisa de Vênus, Marcelo Nova, e o jornalista Sergio Martins, que relembra:

“A Bizz também já teve muitos desafetos. Um deles foi o Marcelo Nova. Acho que foi em 1996, não lembro exatamente, mas teve uma critica de um disco do Camisa de Vênus. Foi a volta do Camisa de Vênus, eles fizeram um disco ao vivo, chamava-se Plugado, se não me engano. Era um disco muito ruim. Para ser bem sincero, era um disco muito ruim. Chegou o Paulo Cavalcanti e sentou porrada no disco. Não teve perdão. Aí eu estou esperando o Eric Burdon, do Animals, para fazer uma entrevista na Vila Madalena, (…) e o Marcelo Nova está lá. Ai eu chego para o Eric Burdon e falo assim:  ‘Hi, Mr. Burdon, I’m from Bizz magazine’. O Marcelo Nova olha para mim e fala: ‘Aquela revistelha!'”.

O hoteleiro João Luis Troiano foi outro leitor da Bizz na década de 1980. Na época em que comprava a revista, na segunda metade dos anos 1980,  Troiano tinha entre 21 e 25 anos. “Através da Bizz, conheci muita coisa, como as bandas inglesas The Cure, The Smiths, The Cult, além do músico norte-americano Sananda Maitreya, conhecido pelo nome artístico de Terence Trent ‘d’Arby. Acho que foi em 86”, diz Troiano.

Troiano conheceu o citado grupo The Cult através de uma matéria assinada por Tom Leão na revista número 11, publicada em junho de 1986. Intitulado “Pauleira Hippie nos Anos 80”, o texto introduzia a banda aos brasileiros, pela primeira vez, com uma matéria extensa na Bizz:

“A original The Cult, como conhecemos hoje, nasceu em 1984. A falta de direção do início ficou de lado e surgiu uma banda definida, com energia controlada, sólida. Com o tribalismo arquivado, é convocado um novo baterista, Nigel Preston (ex-Sex Gang Children) e o sucesso mais uma vez sorri pra eles com o estrondoso estouro do compacto “Spiritwalker”, outro número um na parada independente. No verão do mesmo ano, final-mente vem à luz o primeiro álbum  do Cult, Dreamtime, que em sua primeira tiragem trazia de brinde outro LP, só que gravado ao vivo”. 

terencetrent darby

Terence Trent D’Arby

Dois anos depois, mais um músico citado por Troiano foi contemplado pela revista: Terence Trent ‘d’Arby, famoso pelo sucesso “Wishing Well”. Naquele período, d’Arby era comparado a Prince devido ao visual extravagante e a capacidade de fazer marketing em cima de sua figura. Enviado a Londres, Pepe Escobar assinou a matéria “A Linha Dura do Negro Gato”, na qual analisava o artista:

“Terence Trent D’Arby é, antes de tudo, um sonho de marketing. Um triunfo de embalagem em linha direta dos céus para os escritórios da CBS Records. Ele é belo, ele é esguio, ele é sexy, ele canta, dança, compõe e arranja. Ele tem um big ego para acomodar tanto talento, com o qual também brinca para destruir e devolver contra a indústria da música todos os seus preconceitos e idiossincrasias. Ele tem todas as credenciais necessárias para credibilidade de rua e de passarela. Ele é o melhor cantor e compositor negro já surgido depois de… Marvin Gaye? Sam Cooke? Alguém na semana passada?”.

Paulo Cesar Martin, responsável pela pauta do setor de Esportes da TV Globo São Paulo, foi leitor da Bizz na década de 1980, quando estava na casa dos 20 anos e trabalhava na equipe pioneira em pesquisa de estatísticas sobre futebol no instituto Datafolha. Ele apresenta um programa online chamado Garagem, transmitido pelo portal UOL (Universo Online), ao lado do jornalista André Barcinski.

O programa fez parte da programação da já citada rádio Brasil 2000 FM entre os anos de 1999 e 2005 e seguia a filosofia da emissora naquele momento: apresentar novidades aos ouvintes, sem preocupações com a indústria fonográfica. Notavelmente, seguia um conceito parecido com a da revista Bizz nos anos 1980, maior fonte de informação para Martin no período em questão. Martin afirma que uma das edições mais marcantes trazia “uma entrevista muito boa com o Raul Seixas. Acho que a capa era com o Tears For Fears”.

A matéria em questão foi publicada em março de 1987, na edição número 20. Martin errou a capa, que destacava Renato Russo, mas acertou em cheio ao relembrar a reveladora entrevista em que Raul Seixas falou sobre o seu envolvimento com o ocultismo, a amizade com o escritor Paulo Coelho e a situação do rock nacional naquele momento. Além disso, revelou detalhes sobre o seu exílio nos Estados Unidos, em 1974:

“Até hoje não sei realmente qual foi o motivo. Mas veio uma ordem de prisão do I Exército e me detiveram no Aterro do Flamengo. Me levaram para um lugar que eu não sei onde era… Tinha uns cinco sujeitos… Bom, eu estava… Imagine a situação… Eu estava nu, com uma carapuça preta que eles me colocaram. E veio de lá mil barbaridades: choque em lugares delicados… Tudo para eu poder dizer os nomes das pessoas que faziam parte da Sociedade Alternativa, que, segundo eles, era um movimento revolucionário contra o governo. O que não era. Era uma coisa mais espiritual… Eu preferiria dizer que tinha pacto com o demônio a dizer que tinha parte com a revolução. Então foi isso – me levaram, me escoltaram até o aeroporto… (…) Primeiro eu fui para a Geórgia. Pegamos as coisas de Glória [na época, esposa do cantor] e colocamos no Cadillac que eu comprei do pai dela. Um Cadillac ano 57, cor-de-rosa, do tempo de Elvis Presley. Atravessamos os EUA inteiros, chegamos até Nova York e fomos morar no Greenwich Village”. (SEIXAS apud Bizz, edição 31, 1988, p. 61)

raulseixas

Raul Seixas

Finalizando, o web designer André Marques, 33 anos, como único leitor da década de 1990, ainda apresenta opiniões parecidas com a dos personagens citados anteriormente. No período em questão, Marques estava na faixa dos 15 anos e diz: “a revista Bizz foi a minha principal fonte de informação sobre música durantes anos. Ao lado da MTV dos anos 90 e do programa Garagem, definiram minha formação musical”. Entre as principais bandas que conheceu através da publicação cita os grupos norte-americanos Queens of the Stone Age e Morphine, além do irlandês My Bloody Valentine e do inglês Spiritualized.

Na edição número 126, de janeiro de 1996, o jornalista Pedro Só assina uma crítica do álbum de um das bandas citadas por Marques, “Yes”, do Morphine, lançado em 1995:

morphineyes“Esse tal de rock é um velhinho desgraçado. Quando começam a dizer que ele só funciona na base da catuaba das releituras, o bicho dá uma cipoada na boca dos maledicentes. Ouçam só o que o Morphine, de Boston, arrumou com baixo (com duas cordinhas criativamente afinadas), sax barítono e bateria. Pode ler de novo e conferir: não tem guitarra! O sax faz riffs, o baixo grungeia pesado e a maioria das faixas pulsa forte rock & roll. Em outras, a atmosfera beatnik intoxica as letras irônicas do cantor baixista Mark Sandman. Se você gostou do álbum anterior. Cure For Pain, pode aplicar. Se ainda não conhece o trio, experimente: o Morphine só dá overdose de graves”.

Além das matérias que o levaram a conhecer novos grupos, Marques menciona Alex Antunes e André Forastieri como os jornalistas mais marcantes em suas leituras da Bizz; o primeiro foi notavelmente um dos mais citados nesta pesquisa.

Entre outros aspectos, afirma que “o jornalismo opinativo, crítico, que hoje praticamente inexiste, e as seções essenciais, como ‘Discoteca Básica’, ‘Porão’ e ‘Parada Bizz’”, foram os elementos fundamentais que o tornaram um leitor assíduo da publicação.

História da revista Bizz

História da Bizz

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