Edições de 1987 – A invasão punk

ROTTENOs números lançados em 1987 não apresentaram muitas alterações em relação às edições publicadas nos dois primeiros anos da Bizz. A equipe editorial era praticamente a mesma do início da revista, com algumas mudanças entre os redatores, mas nada que interferisse sensivelmente no conteúdo.

Na edição de agosto desse ano (nº 25), o jornalista Alex Antunes assumiu o cargo de editor-chefe. Colaborador contratado da publicação desde o começo, e oriundo da cena rock’n’roll de São Paulo, Antunes deu continuação ao plano editorial original, preferindo textos a imagens e teor analítico nas matérias. Não deixou de imprimir seu estilo na Bizz, entretanto, dando mais ênfase à cena punk e pós-punk em suas páginas. Já no editorial deste número, assinado por Antunes, percebe-se claramente essa maior atenção ao tema:

“Agosto também é o mês da… invasão punk! Invasão o quê?!, indagará o leitor bem-informado. Pois é. Descontada a diferença de tempo, aquele estranho ‘fuso horário’ que nos desloca uns dez anos para lá da coisa toda, temos Sex Pistols e Clash… ops, PIL e BAD, liderados pelos mesmos Johnny Lydon e Mick Jones, desembarcando aqui na terrinha. Thomas Pappon e Jean-Yves de Neutville correram para o telefone vermelho e arrancaram, do próprio Lydon e de Don Letts, lugar-tenente de Mick Jones, o plano-mestre do ataque”.

A matéria de capa desta mesma edição estampava o rosto de John Lydon (conhecido pelo apelido de Johnny Rotten, Joãozinho Podre em tradução livre), vocalista egresso da banda punk Sex Pistols que, naquele momento, liderava a banda pós-punk Public Image Limited (PIL). O grupo, que recentemente havia se apresentado no Brasil, sintetizava a passagem do estilo punk para o pós-punk.

Assinada por Thomas Pappon, a matéria de três páginas apresentava uma entrevista com o cantor, na qual Lydon qualificou a música pop inglesa daquele momento da seguinte forma: “Desprezível. Realmente terrível. Ela está cheia de homossexuais. Fraca. Insípida. São todos covardes”.

Continuando a tradição da Bizz no rock nacional, a edição 25 ainda apresenta uma matéria com o Kid Abelha, que naquele período mixava o disco “Tomate” em Londres. Há ainda uma entrevista com o artista icônico que estampou a capa da primeira edição, Bruce Springsteen, e uma matéria apresentando uma banda chamada Everything But The Girl, intitulada “Tudo Menos Isso”, em referência à declaração da vocalista de que a banda não tinha nada a ver com o rock.

No mesmo número, em matéria assinada pela jornalista Sônia Maia, é apresentada a história de um selo musical independente de São Paulo, o Punk Rock Discos, idealizado por Fábio Sampaio, da banda Olho Seco. O selo foi de extrema importância para o punk na cidade no começo da década de 1980, gravando álbuns de grupos pioneiros do gênero no Brasil, como Inocentes, Cólera e Brigada do Ódio, além do próprio Olho Seco. Entre os títulos da gravadora autônoma, alguns são considerados raridades, como o registro do festival “O Começo do Fim do Mundo” (1982).

“Em 82, envolvido por uma agitada correspondência com o exterior – que vinga até hoje – Fábio resolve fazer o primeiro registro daquele momento e grava, pelo seu selo, o LP Grito Suburbano. Onde apareciam os pioneiros Olho Seco, Cólera e Inocentes. Naqueles áureos tempos, muitos achavam que as coisas não iam parar por ali. Tudo levava crer que finalmente se instalaria no Brasil um círculo cultural jovem ativo. Não aconteceu bem assim. Entre a vontade e a realização, se meteu a força da grana”.

No número seguinte (edição 26, de setembro), outro punk ganhou destaque na capa da Bizz. Desta vez o vocalista Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, cumprindo a premissa indicada por Antunes na edição em que assumiu o cargo de editor-chefe. A matéria de capa, intitulada “Roendo a Corda”, explorava o recém-lançado disco da banda brasiliense, “Independência”, a partir de uma longa entrevista com os integrantes.

Este número ainda apresentava o grupo americano Beastie Boys, que fazia uma mistura inusitada de rock e rap. Em entrevista intitulada “Feios, Sujos e Malvados”, os integrantes Mike D e Ad Rock respondem às perguntas argutas de Pepe Escobar, que indaga o porquê de garotos brancos como eles optarem por um estilo de raízes negras:

“Rap é coisa de gueto, uma forma de música realmente popular, de rua. Vocês cresceram no Village, entre Washington Square e o Lone Star Café, perto do SoHo, em um meio burguês, com acesso a uma série de informações. Vocês se amarram ou apenas se apropriaram do rap?”.

As últimas três edições de 1987, contradizendo a dita “invasão punk à Bizz”, trouxeram nas capas artistas já consagrados e com uma sonoridade bastante popular. No número publicado em outubro (edição 27), o músico em destaque era Michael Jackson, que à época apresentava-se no Japão em meio a uma turnê mundial. A matéria ficou por conta da jornalista Ana Maria Bahiana, que descreveu a passagem do músico norte-americano pelo país oriental com o criativo título “As Aventuras de um Transformer no País do Godzila” (Bizz, edição 27, 1987, p.31).

Apesar desta edição ter destacado um ícone de popularidade, a Bizz ainda sofria forte influência de Alex Antunes. Além disso, a jornalista Bia Abramo – também egressa da cena rock paulistana – assinou o editorial do número em questão. Contrastando com a reportagem sobre Michael Jackson, na sequência via-se o semblante mal humorado de Clemente Nascimento, vocalista dos Inocentes, ao lado dos outros integrantes da banda. O título da matéria, assinada por Sônia Maia, sintetizava as ideias da banda no momento: “Rock’n’roll é música de buraco”.

“Falar dos Inocentes é falar de parte da história do rock nacional que foi  soterrada pela ditadura nas catacumbas da era discoteque. ‘A Idade Média da cultura jovem brasileira’, como diz Clemente. Aquele bando de garotos ‘mal-comportados e com cheiro de periferia’ não interessava à mídia e adjacências. Ignorá-los foi fácil. Difícil é apagar a história, já que a sombra desses moleques acompanha 99% do rock produzido aqui de 82 até agora. E todo o pessoal que frequenta a mídia hoje em dia se recusa à olhar para trás e admitir essa influência. O resultado disso tudo é o seguinte: devido a nossa já decantada falta de memória, de registro. os Inocentes ouvem, pelas ruas ou de alguns ouvintes, frases como: ‘O som de vocês é parecido com o do Titãs…'”.

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Nesta edição, na seção “Cabra Cega”, o cantor carioca Jorge Ben Jor arriscou-se no jogo de adivinhação. Demonstrando grande conhecimento, acertou a primeira música, “Tutu”, do compositor e trompetista de jazz americano Miles Davis, e comentou: “Tenho vários discos dele, ainda da década de cinquenta. Agora acho que alcançou o ápice, o máximo com este disco. É o mesmo timbre de trompete de sempre com uma tecnologia espantosa. É demais”.

Em outra seção, novamente um selo tornou-se assunto da revista. A nova gravadora da vez chamava-se Plug, e foi denominada pela Bizz como “o 1º selo de rock nacional”. Diferentemente do selo citado anteriormente, Punk Rock Discos, que era independente, o Plug foi criado por iniciativa conjunta das gravadoras RCA/Ariola. O primeiro disco que lançou foi a coletânea “Rock Grande do Sul”, gravado por bandas gaúchas.

O selo foi importante para o rock nacional por apresentar as bandas deste estado para o resto do Brasil, mas também contava com grupos de outras localidades. Naquele momento, os principais conjuntos que compunham o cast da Plug eram: TNT (RS), Nenhum de Nós (RS), DeFalla (RS), Engenheiros do Hawaii (RS), Garotos da Rua (RS), Os Replicantes (RS), Picassos Falsos (RJ), Violeta de Outono (SP), João Penca & seus Miquinhos Amestrados (RJ) e Hanói-Hanói (RJ).

A explosão do Heavy Metal nacional

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Sepultura e Ratos de Porão

Um fenômeno importante ocorrido em 1987 foi a explosão do heavy metal brasileiro no exterior. Captada pela Bizz nº 26 (setembro), em matéria de Sônia Maia sobre a banda mineira Sepultura, a expansão do gênero ganhou uma matéria intitulada “Brasilian Speed Metal For Export” (Bizz, edição 26, 1987, p.66). No texto, Max Cavalera, então vocalista do grupo, explica que o reconhecimento internacional teve início após um dos integrantes da banda ter enviado o LP “Morbid Visions” (1986), para a rádio nova-iorquina WCBR, especializada em heavy metal:

“Daí para a frente foi mero desenrolar natural: cartas e mais cartas de pedidos de camisetas e buttons (todos desenhados por Igor [baterista da banda e irmão de Max]), um primeiro lugar na rádio Overkill do Canadá e o interesse de várias gravadoras em lançar o grupo no exterior. E quem venceu a última concorrência foi o selo alemão Argh!, que lançou, no mês passado, dez mil cópias de Morbid Visions. Em caso de venda total, o Sepultura terá direito a uma turnê europeia bancada pela gravadora”.

Na edição seguinte, de outubro, o heavy metal continuava a ganhar destaque na Bizz. Outro grupo que se destacava junto ao Sepultura eram os Ratos de Porão, que haviam mudado a sonoridade do punk para o heavy metal. A Bizz publicou uma matéria sobre um show que reuniu as duas bandas, notavelmente envolvidas no final da década de 1980.

Celso Pucci

assina o texto, intitulado “Som das Profundezas”, sobre a apresentação realizada no dia primeiro de setembro de 1987, no Teatro Mambembe (São Paulo), descrevendo a sintonia entre os músicos:

“(…) dadas as afinidades e a mútua admiração existente entre as duas correntes. Afinal elas têm em comum, acima de tudo, a mesma fissura pelo som rápido e pesado. Ou cada dia mais sujo e agressivo, como diriam os Ratos de Porão – um dos estandartes do hardcore paulista – em uma das músicas que constará de seu terceiro LP. Para apresentar seu novo repertório, os RDP dividiram um show no Mambembe com o Sepultura, promissor grupo de speed metal de Belo Horizonte, composto por quatro garotos com idade entre 16 e 18 anos. Os Ratos atacaram primeiro, com músicas de no máximo dois minutos, em que o peso da massa sonora produzida por Jão (guitarra), Jabá (baixo) e Spaguetti (bateria) formava o complemento ideal para as “groaridades” vocais de João Gordo. Depois foi a vez do Sepultura mostrar seu metal afiado nas guitarras de Max e Andreas, no baixo de Paulo e na bateria de Igor. Pena a banda ter sido prejudicada pela má equalização do som. Mas isso parece não ter sido um empecilho para a fiel platéia de headbangers ensandecidos, que vibraram com igual intensidade nas que apresentações de ambas as bandas”.

História da Bizz

História da revista Bizz

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