Edições de 1985 – Uma nova e audaciosa revista

BRUCEA primeira edição da Bizz vendeu 100 mil exemplares. Entre as principais características da edição pioneira, destacam-se as seguintes: preferência pelo texto à imagem; matérias extensas e analíticas (fazendo uso de técnicas do New Journalism); grande abrangência geográfica, com jornalistas enviando informações do exterior; apresentação de novos artistas, então desconhecidos pela maior parte do público brasileiro; indicações de bandas nacionais e espaço para críticas e resenhas em outros campos além do musical, como cinema e aparelhagem de som. O editorial foi assinado pelo então presidente da Editora Abril, Victor Civita:

“O aumento de público nos shows e nas danceterias, a proliferação dos programas de videoclips e a recuperação da indústria de discos deixaram clara a necessidade da criação de uma nova publicação. Uma publicação que andasse junto com a música e a imagem em suas mais diversas manifestações. Para isto nós fizemos BIZZ. Para acompanhar todos os movimentos ligados à música jovem, aqui e lá fora. Com informação séria e detalhada, em coberturas de shows e reportagens, e opinião equilibrada, em colunas e seções que vão manter você em sintonia”.

As primeiras seções fixas da Bizz, categorizadas no índice pelo próprio corpo editorial da revista como “Todo Mês”, eram as seguintes:

  • Show Bizz – Agenda de shows, lançamento de livros e outras indicações
  • Parada – Lista com os discos mais vendidos do momento, baseada em dados de lojas da região sudeste; e classificação das músicas mais tocadas nas rádios FM do Brasil
  • Vídeo Bizz – Indicações de VHS de filmes e musicais
  • Ao Vivo – Resenhas de shows nacionais e internacionais
  • Visual Cinema – Críticas e matérias sobre filmes
  • Heavy Metal – Dedicada somente ao gênero de rock pesado, apresentando novas bandas nacionais e internacionais e indicando grupos do estilo
  • Lançamentos – Resenhas de discos
  • Clip – Textos descritivos  e imagens de videoclipes lançados naquela época
  • FM – Opiniões de produtores e disque-jóqueis sobre música
  • Porão – Indicação de novidade do Brasil e exterior
  • Cifras – Cifras para acompanhamento de músicas no violão
  • Letras – Traduções de letras
  • Equipamento – Indicação de instrumentos e aparelhagem de som
  • Meu instrumento – Músicos falando sobre seus instrumentos preferidos
  • Bits Bizz – Alta tecnologia e informática
  • Discoteca Básica – Indicações de discos considerados essenciais pelo corpo editorial
  • Opinião – Artigos de uma personalidade do meio musical

A capa da revista já mostrava qual seria uma das principais características do periódico na década de 1980: a ousadia. Se no ano do lançamento da publicação, 1985, o Rock in Rio havia sido realizado em janeiro com a participação de mais de um milhão de pessoas, e a presença de bandas consagradas como Queen, Iron Maiden, Whitesnake e AC/DC, a Bizz resolveu estampar na capa da sua primeira edição, em agosto daquele ano, um artista que não havia se apresentado no festival carioca: Bruce Springsteen.

Na matéria de capa sobre o cantor americano, inusitadamente intitulada “Para os fãs, ele é o Bruuuce”, e assinada pelo jornalista José Emílio Rondeau, a revista demonstrou coragem ao dar o maior destaque da primeira edição ao músico, que à época estourava nos Estados Unidos com o disco “Born in the USA”, lançado em 1984. Ainda não muito conhecido pelo público brasileiro pelo álbum, mas sim pela pela sua participação no projeto “We Are the World”, Springsteen foi comparado a músicos já consagrados no Brasil, como os Rolling Stones e Rod Stewart.

“Os Rolling Stones e Rod Stewart preferiam frequentar as colunas sociais a aparecer nas revistas de música. Princesas e famosos herdeiros de grandes corporações eram elevados à esdrúxula categoria de tietes de luxo. O rock daquele tempo era um triste circo de exibicionistas, um interminável desfile de limusines, jatos e starlets. Podia ser tudo, menos aquilo a que o rock se propusera no passado: libertação, juventude e esperança. Não havia mais futuro”.

Mostrando-se ligada às novidades internacionais, a segunda matéria da Bizz número 1 foi assinada pelo correspondente Silvano Michelino, que cobriu o “Rosa de Ouro”, festival internacional de música realizado em Montreux, na Suíça. Nas páginas seguintes, assinada por Silvano Michelino, uma reportagem sobre os novos projetos de Sting após sua saída do The Police. Outros textos marcantes do primeiro número da Bizz, escritos por José Augusto Lemos, apresentavam os títulos “Como você nunca ouviu falar dos Smiths?”, apresentando a banda de Manchester (Inglaterra) para os brasileiros, e “Titia, eu não estou com leucemia”, uma extensa entrevista com a cantora Rita Lee.

psucho

Na seção “Porão”, destacou-se
Pepe Escobar, já famoso pelas críticas incisivas no caderno cultural Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Naquela época, a banda Jesus and Mary Chain causava estranhamento na Inglaterra com sua música ruidosa, que utilizava microfonia e distorção de forma conceitual. Ao jornalista, coube a difícil missão de explicar o som da banda aos brasileiros na primeira edição da Bizz.

“Desintegração. Uma batida psicótica. Uma melodia pop que se arrasta como um dinossauro ferido. E ondas e ondas de microfonia. Para eles, a microfonia não é apenas um truque no final de um acorde, usado para excitar o ouvinte. É a própria essência de seu som. Hendrix adoraria. Não existe tonalidade. Não existem os crescendos que atingem aqueles piques dançantes e assobiáveis próprios ao pop. Temos microfonia rasgando o ouvido como uma lima, e a guitarra arranhada a ponto de soltar faíscas. Eu os ouvi pela primeira vez em uma fita pirata de um vendedor em Portobello Road, em Londres. Disse ele: “O concerto é assim mesmo. Quarenta minutos de microfonia. E quando eles resolvem ir embora, param e saem no meio de uma música”.

Era apenas um texto de meia página de uma das seções finais da revista, mas sintetizava o que foi a Bizz para os brasileiros na década de 1980: um tradutor quase simultâneo de novas ideias, mesmo quando quase inexplicáveis. A sonoridade da banda em questão já era praticamente indescritível para quem a tinha ouvido. Era o jornalismo tentando sinestesicamente explicar o abstrato. Nota-se na revista, também, a utilização de técnicas do New Journalism e um texto com estilo não convencional.

Neste aspecto reside a importância da Bizz como fonte de informação para a formação cultural do jovem nos anos 1980: abertura para novos conceitos. Nunca antes no Brasil uma revista sobre música fora tão avançada a ponto de elencar em uma mesma edição, como na primeira, tantos artistas desconhecidos para os leitores.

Além da capa estampando Bruce Springsteen, o primeiro número dividia-se entre matérias e seções em que era possível conhecer novidades como as bandas paulistas Sossega Leão e Ira!, o grupo brasiliense Capital Inicial, o conjunto carioca Biquíni Cavadão e a banda americana REM.

Em uma das seções da revista chamada “Clip”, os jornalistas descreviam para o leitor os clipes da MTV americana com o auxílio dos frames, que ilustravam as matérias. Na edição número 5, de dezembro de 1985, foi apresentado o clipe “Money for Nothing”, da banda inglesa Dire Straits:

“Dirigido pelo mesmo Steve Barron que fez “Billie Jean”, de Michael Jackson (que, em termos de linguagem e estilo, dá de 10 a zero em “Thriller”), o clip de “Money for Nothing” é o melhor casamento rock/tecnologia de vídeo desde “You Might Think”, do Cars. Barron misturou duas coisas: filme e animação por computador (computer graphics). Primeiro, gravou um concerto do Dire Straits. Depois, processou essas imagens. Ou seja, “desenhou” por cima de cada fotograma (quadros da película. 24 deles correspondem a um segundo) o efeito especial desejado. Dessa forma, Mark Knopfler aparece com mãos fluorescentes, boca distorcida e guitarra ‘radioativa'”.

Ainda em 1985, ocorreram leves mudanças na publicação. Na terceira edição, de outubro daquele ano, foi introduzida a seção “Cabra-Cega”, na qual um músico escutava canções desconhecidas, tentava adivinhar o intérprete e dava a sua opinião sobre o que tinha ouvido. Neste número, o personagem da seção foi ninguém menos do que o cantor Tim Maia, que opinou sobre diversas bandas, sem se preocupar com a repercussão de suas declarações no meio musical. Sobre a música “Rio do Delírio” – da banda Lobão & Ronaldos, o músico arriscou: “Que desgraça é essa? Pela introdução já deu pra sentir que é brasileiro. A música não é ruim… Parece o Lobão… Ele tá com um funk novo bom, ‘Decadence…’, mas essa não dá pé”.

Entre os principais músicos que opinaram na “Cabra-Cega”, os integrantes do grupo RPM, no auge da carreira, sem saber que ouviam a música “Penetration”, de Iggy Pop, disseram que a sonoridade lembrava “um Gremlin cantando” (Bizz, edição 10, 1986, p. 29), além de a compararem a “dois gatos brigando no estúdio” (Bizz, edição 10, 1986, p. 29).

Outra seção inaugurada na terceira edição foi a “Cartas e Serviços”, uma resposta criativa ao potencial de diálogo com o leitor observado ainda na primeira edição. Em resposta ao lançamento, mais de 10 mil cartas foram enviadas à redação. Em uma época em que as cartas ainda eram a principal (e mais econômica) forma de comunicação, a Bizz abriu espaço para o público expressar opiniões.

Neste número, a revista recebeu cartas de Goiânia (GO), Palmital (interior de São Paulo), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP). No seu espaço, além de publicar a opinião dos leitores, a Bizz os colocava em contato direto com os redatores, que respondiam à críticas ou dúvidas sobre suas matérias.

elvisEntre as seções mais clássicas da revista, a preferida dos redatores era a “Discoteca Básica”, que apresentava discos essenciais na opinião do corpo editorial. Em 1985, os discos escolhidos para a seção foram os seguintes, em ordem de publicação: “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (The Beatles), “Low” (David Bowie), “The Sun Sessions” (Elvis Presley), “Exile on Main Street” (The Rolling Stones) e “The Doors”, disco homônimo da banda americana.

As escolhas da seção privilegiavam os trabalhos de bandas já consagradas, considerados fundamentais para qualquer coleção de discos, munindo o leitor de referências de estilos e músicos de décadas anteriores (1950-1970), ajudando-o a completar a sua formação cultural.

No número em que a seção se debruça sobre o disco de Presley, por exemplo, Roberto Muggiati não se limita a comentar a obra em si, narrando o místico encontro entre o cantor e o dono da Memphis Recording Service, subsidiária da gravadora Sun:

“Como quase tudo no rock’n’roll, é uma história cercada de lenda. Sam Phillips, dono de uma gravadora em Memphis, queria ‘encontrar um branco com o som e o sentimento de um negro, para ganhar um milhão de dólares’. Elvis Presley, um jovem aspirante a cantor, queria ter o melhor carro da cidade. O encontro dos dois assumiria uma dimensão mitológica. Mas não aconteceu facilmente. Tudo começou numa tarde do verão de 1953. Elvis, 18 anos, chofer de uma firma de artigos elétricos, estacionou a camionete da companhia na sua hora de almoço em frente da Memphis Recording Service, uma subsidiária da gravadora Sun, de Sam Phillips”. 

Finalizando as edições do primeiro ano da Bizz, seria impossível não falar de um estilo que ganhava força no Brasil: o heavy metal, tradicionalmente considerado uma criação da banda inglesa Black Sabbath, cuja gênese teria ocorrido com o lançamento do seu disco homônimo, de 1970. A força do gênero era tão grande à época, no Brasil, que a revista já nasceu com uma seção fixa chamada “Heavy Metal”. Nesta primeira edição, diversas notas, assinadas por José Eduardo Mendonça, citam bandas de metal:

“Após contratos milionários e mil exigências. o empresário Bruce Payne (então cuidando do Rainbow) conseguiu reajuntar o Deep Purple, com a nata dos músicos que passaram pelo grupo – Ian Gillan, Ritchie Blackmore, Ian Paice, Jon Lord e Roger Glover. Gravaram e lançaram, como se sabe, Perfect Strangers. E abriram com estardalhaço no final de junho, na Inglaterra, o festival de Knebworth. No Black Sabbath, Iommi e Butler continuam à cata de um novo vocalista para gravar um LP. Pelo vocal passaram Ozzv e Dio, além de Ian Gillan, que está no LP Born Again. Chegaram até a apresentar Donato para a imprensa, em fotos promocionais, mas o rapaz foi mandado embora. Será que foi incompetência?”.

É importante lembrar que muitos fãs da revista Rock Brigade, especializada somente em rock pesado, acabaram migrando para a Bizz devido à facilidade em adquirir a revista. Apesar de sua tradição – foi criada em 1981 – a Rock Brigade era editada por fãs e, diferentemente da Bizz, não possuía a abrangência de distribuição e a estrutura de um título da Editora Abril. Além disso, a Bizz abria espaço para todos os estilos de rock, configurando-se como uma revista mais completa.

História da Bizz

História da revista Bizz

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s