Contexto histórico

caparenatoA Bizz surgiu na segunda metade da década de 1980. Aquele período foi crucial para a cultura, política e economia brasileira por dois motivos: consolidação do fim da ditadura militar e consequente abertura cultural – que culminou em uma pluralidade de manifestações no país, entre elas o rock’n’roll, e na criação de impressos voltados para este gênero musical.

O Conselho Nacional de Telecomunicações (CONTEL) havia encerrado as suas atividades em 1983. A função da CONTEL era impor restrições ao conteúdo de programas televisivos e de rádio. A ditadura chegava ao fim, e os meios de comunicação estavam livres da fiscalização de conteúdo de um órgão oficial.

Possivelmente o grande marco histórico desse período seja uma das últimas manifestações do movimento Diretas-já, realizada na Praça da Sé (1984), que reuniu 1.500.000 pessoas em São Paulo. Vale notar, a passeata não pôde ser abafada pelo controle midiático.

Motivado pela mudança política, outro fator importante no ano de lançamento da revista foi a abertura cultural que propiciou a ascensão das bandas de rock que formaram a cena áurea deste gênero musical no Brasil. Apenas em 1985, foram lançados três álbuns de extrema importância: o primeiro disco da Legião Urbana, homônimo, “Nós Vamos Invadir sua Praia“, do Ultraje a Rigor, e “Rotações por Minuto”, do RPM, disco que vendeu 300.000 cópias.

Além destas, outras bandas endossavam a cena rock do período. Em São Paulo, os nomes do momento eram Ira!, Inocentes, Mercenárias, Akira S e as Garotas que Erraram, Titãs, Violeta de Outono e Olho Seco. Em Brasília, além da Legião Urbana, os principais conjuntos eram Plebe Rude e Capital Inicial. No Rio Grande do Sul, os grupos eram Cascavelletes, DeFalla, Replicantes, Engenheiros do Hawaii, Graforréia Xilarmônica e Nenhum de Nós. Por último, no Rio de Janeiro, as bandas eram Paralamas do Sucesso, Blitz, Barão Vermelho e Kid Abelha e os Abóboras Selvagens.

rockinrio

Em 1985 também acontecia a primeira edição do Rock in Rio, no Rio de Janeiro. O festival foi pioneiro em trazer grandes atrações internacionais ao país, reunindo cerca de 1 milhão de pessoas e mostrando que havia público para o rock no Brasil. Idealizado pelo empresário Roberto Medina, além de proporcionar aos brasileiros a oportunidade de assistir aos shows de AC/DC, Queen, Iron Maiden, Whitesnake, James Taylor e Ozzy Osbourne, o evento reuniu no mesmo espaço as bandas nacionais emergentes. O cenário era propício para a criação de um novo veículo voltado para a música. A jornalista Bia Abramo comenta o nascimento da revista em uma edição da revista de 1995:

“Em 85, o mundo era um lugar diferente do que é hoje. (…) No Brasil, ainda não se elegia o presidente da República, mas tinha-se a impressão de que, aos poucos, de forma irregular, desorganizada e fragmentária, se despertava de uma longa hibernação. Os anos 80 chegaram com atraso de mais ou menos cinco anos, mas, para o bem ou para o mal, acabaram apartando por aqui. Hoje, com a MTV 24 horas no ar, selos independentes em cada esquina, CDs importados quase a gosto do freguês, fica difícil imaginar o que significou o surgimento de uma revista como a BIZZ”.

A maioria das bandas brasileiras do período foi assumidamente influenciada pelo pós-punk, subgênero do rock que predominou na década de 1980. Derivado do punk rock do final dos anos 1970, chegou ao Brasil no final da ditadura militar através dos jornais impressos. Mais intelectualizado, experimental e flertando com elementos eletrônicos, o estilo era encabeçado por bandas como Joy Division, The Cure, Siouxsie and the Banshees, Echo and the Bunnymen, The Smiths, The Fall, Sisters of Mercy e Bauhaus. Nas palavras do músico Renato Russo:

“Os jovens são controlados por causa da televisão. Se você não é bonito, não tem um rosto bem-feito, você não presta. Por que você acha que os Smiths ou a Legião ou bandas como Echo atingem tão a fundo? Porque falam disso que todo mundo sabe”.

Também influenciada pelos pós-punk inglês, houve a formação de uma cena, especificamente em São Paulo, com as diversas casas noturnas que surgiram na década de 1980. Locais como o Carbono 14, Madame Satã, Aeroanta, Espaço Retrô, Cais e Projeto SP apresentavam aos jovens da época shows e músicas que eram tendência no exterior, funcionando também como um ponto de encontro para a troca de ideias e formação de bandas. Pepe Escobar comentou esse movimento no livro “Pós-Tudo: 50 Anos de Cultura na Ilustrada”.

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“(…) Em São Paulo era um negócio mais negro, mais subterrâneo. O Carbono chegou a reunir numa festa 2.000 pessoas, o que era um negócio grande naquela época. E chegou uma hora que o underground foi passando para o mainstream [gosto da maioria] e virou uma cena enorme. A noite em São Paulo em 84, 85, era um negócio alucinante. Tinha quatro, cinco coisas que você não podia perder toda noite. A cidade começou a atrair gente do Rio e até estrangeiros começaram a vir para cá. Rolava algo na linha “São Paulo está acontecendo”. Eu lembro que, quando eu passava por Paris, os caras sabiam o que estava rolando em São Paulo e queriam vir. (…) É impressionante isso. Em três anos, a polaridade cultural do Brasil virou de ponta-cabeça e São Paulo passou a se expor como um centro interessante para o resto do mundo”.

A cena paulista não passaria despercebida pela grande imprensa, que já gozava de maior liberdade para tratar de determinados temas, antes considerados subversivos, como o rock’n’roll. Daniel Piza, no livro Jornalismo Cultural, apresenta um pouco do panorama daquela época:

“Foi só nos anos 80 que os dois principais jornais paulistas, a Folha de S. Paulo – que entrou em ascensão depois do movimento das Diretas-já, em 1984 – e o centenário O Estado de S. Paulo consolidaram seus cadernos culturais diários, a Ilustrada e o Caderno 2, em cujas contracapas Francis teve suas colunas. Os dois cadernos fizeram história de meados dos anos 80 até o início dos anos 90, sintonizados com a efervescência cultural que a cidade vinha ganhando e com o espírito de abertura democrática do país”.

Junto a isso, havia uma crescente cena de heavy metal nacional, que revelou bandas hoje conhecidas no mundo todo como a paulista Ratos de Porão (que começou no gênero punk, mas teve um período heavy metal) e Sepultura, de Minas Gerais. Ambas foram divulgadas pela Bizz e estavam sempre na pauta de reportagem da revista ao longo desta década.

mtvA criação da Bizz também foi fomentada pelo surgimento da MTV nos Estados Unidos, em 1981. A partir de sua estreia, as bandas passaram a ser divulgadas através de videoclipes. Passava-se então a assistir música. Assim, muito antes da criação da MTV Brasil, a revista mantinha uma seção chamada “Clip”, em que apresentava e comentava os novos videoclipes que surgiam no exterior, com a publicação de imagens dos vídeos, contextualização e descrições meticulosas dos redatores.

Completando o cenário favorável que impulsionou os primeiros números da revista, antes de a Bizz completar um ano de existência surgiria também o Plano Cruzado (1986), alavancando o consumo no Brasil e beneficiando a indústria fonográfica e de entretenimento. O desenvolvimento no setor econômico aqueceu o segmento publicitário e iniciou um novo panorama de serviços e produtos direcionados aos jovens brasileiros.

História da revista Bizz

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